Texto publicado na sessão “Ponto e Vírgula” do site do Clube de Criação do Paraná.
Como estou escrevendo este artigo no Dia do Trabalho, resolvi dar um foco exclusivo ao nosso mercado por esta ótica: o trabalho de publicitário. Como responsável por uma agência e conversando com muitos outros empresários do setor e profissionais, confesso que estou bem preocupado com o nosso futuro.
Antes de identificarem o assunto como algo patronal, focado apenas no negócio ou alguma espécie de “teoria do caos”, gostaria que vocês se lembrassem apenas no último ano, de quantos colegas publicitários trocaram de área ou estão prestes a trocar. Tenho certeza que muitos de vocês se lembrarão de alguém, se não for vocês mesmos.
A publicidade tem perdido seus encantos e tem ficado distante para aqueles que buscam carreira nesta profissão. Vejo cada vez mais profissionais e até mesmo recém-formados trocando a publicidade por uma vaga no marketing de alguma empresa, virando house de outras, prestando concursos públicos, fazendo outras faculdades, ajudando na empresa da família ou até mesmo montando empresas próprias em outras áreas.
Mas por quê? Bom, existem inúmeros motivos. Mas, buscando entender um pouco mais este “movimento”, vejo através de experiências próprias, muitos relatos e muitas conversas de mercado, algumas das prováveis causas:
1) Remuneração: As verbas cada vez mais apertadas não deixam espaço para as agências pagarem uma boa remuneração aos seus colaboradores. Lógico que temos gente ganhando bastante dinheiro com isso, mas estou falando da média do mercado.
2) Alta competitividade: Quando o publicitário não se enquadra numa boa agência, acaba se juntando com outros e abre a sua própria. É um movimento natural, mas na busca de clientes para se manter e montar o próprio portfólio, muitas vezes deprecia o próprio negócio.
3) Segmentação: A publicidade tal como a conhecemos, nunca esteve tão reduzida na participação do bolo. Hoje, temos dezenas de empresas que oferecem desde sites, marketing direto, marketing de relacionamento, marketing digital, gestão de redes sociais, marketing de eventos e entretenimento, marketing esportivo e por aí vai. É lógico que a agência, principalmente de lugares menores, acaba oferecendo estes trabalhos de alguma forma. Mas, sabemos que a verba não aumentou o suficiente para tudo isso, ela apenas tem trocado de mãos.
4) O cliente existe: Outro fator que tem desestimulado muito, principalmente os novos profissionais, é a interferência do cliente no nosso trabalho, cada vez mais dono do nosso negócio (afinal ele paga a conta). As novas gerações não suportam muito um “não”, “você pensou nisso antes?” ou “comecem de novo”. Eles acreditam piamente que a ideia deles é a melhor para aquele problema (apesar de acertarem muitas vezes). Mas, a gestão diária de um cliente exige que o publicitário tenha muita determinação, humildade e até mesmo uma visão mais geral do negócio no qual o cliente está envolvido, saiba assimilar isso e tocar em frente. Não vou tocar na parte do cliente, senão teríamos um texto só para eles.
5) Carreira e estabilidade: Em média, a maioria dos publicitários, passa pelo menos por 10 a 15 empresas durante a sua curta carreira. Acredito que seja mais ou menos isso, dependendo do perfil e talento de cada um. Confesso que não tenho pesquisas que comprovem esses dados. Então, do ponto de vista de carreira, isso gera uma dúvida na cabeça do publicitário. Como vou me aposentar nessa área? Depois dos 45 anos (Putz!!, estou quase lá) ainda vou estar bem no mercado?? Minhas ideias continuarão a ser aprovadas? Se não conseguir um cargo de diretor ou for o dono da minha própria agência, como vou ter estabilidade no futuro? Estas e muitas outras perguntas dominam a nossa cabeça e daí a incerteza que aparentemente a profissão nos dá.
6) Geração Y: Inquietude, desapego, energia, internet e segurança familiar. Esta combinação, sensacional por um lado, mas perigosa por outro, também tem afetado a nossa profissão. As novas gerações são incrivelmente talentosas, antenadas e criativas, mas sinto falta de um pouco mais de preparo (não falo de experiência aqui), uma segunda leitura em tudo para entender melhor a nossa profissão. Não são raros os casos que pude presenciar, ou tive oportunidade de dividir com algum colega, de publicitários que não têm mais paciência em criar realmente vínculos com uma agência. E esse problema tem vários fatores: o primeiro diria que é não saber lidar com a pressão de uma agência em termos de prazos, horários malucos, ideias que batem e voltam, humor flutuante do cliente e o maldito “time sheet”. O segundo é a esperança de que o próximo emprego será diferente (pode ter certeza, não vai mudar muito). O terceiro tem a ver com este mundo virtual que está em nosso dia a dia, muita informação, muitas oportunidades, muita história, mas a vida ainda é real. O quarto e último é que estas novas gerações têm muita ajuda dos pais e ainda moram com eles, isso significa que em muitos casos, eles não dependem diretamente do seu salário para se manter e isso torna o trabalho um pouco menos importante.
7) Mercado cansado: Para os profissionais mais velhos ou com um pouco mais de experiência, existe o pragmatismo de que essa é uma profissão sem futuro, que a vida de publicitário não é fácil, que ganhamos mal, que todo mundo entende de marketing (outro erro crasso da nossa profissão). Quem disse que temos que entender tudo de marketing? Nós somos publicitários e temos como missão principal, cuidar da comunicação de uma marca ou produto. Nós só temos a responsabilidade sobre um dos “P” do marketing, Promotion. Enfim, tudo isso acaba afetando também quem está no mercado e quem está entrando.
Bem, poderia enumerar muitos outros possíveis sintomas e problemas que vêm atrapalhando o nosso trabalho, mas hoje é feriado e também preciso descansar um pouco, como todo trabalhador.
Trabalhador, é isso. Nós também trabalhamos muito. Por isso, precisamos definitivamente assumir a importância da nossa profissão, nos organizarmos melhor, conversarmos mais e tomarmos atitudes mais firmes para defender os nossos interesses.
Precisamos ampliar o nosso orgulho e pensar um pouco mais no mercado que queremos. Vamos deixar de lado aquela história de que não adianta nada, que nunca vai mudar, que já tentamos tudo o que era possível. Enfim, vamos usar a nossa criatividade para nós mesmos.
Vamos mostrar aos que estão, aos que recém-chegaram e aos que virão, que apesar de tudo o que está acontecendo, temos orgulho do nosso trabalho. Que redatores, diretores de arte, mídias, produtores, planners e muitas outras funções da nossa área são fundamentais para que outros trabalhos e empresas existam e tenham sucesso.
Feliz 1° de Maio. Feliz Dia do Trabalho Publicitário.